Monday, November 06, 2006
Varanda.

O telefone chamou uma vez, duas vezes, gritou irritado, mas nada... Nunca entendi porque tem, a Mafalda, um telemovel. Pensei que talvez estivesse a trabalhar num qualquer projecto megalomano. "Os arquitectos não dormem, minha cara, são como as putas, trabalham noite dentro, e na maior parte das vezes, com fraquíssimas remunerações...". Seja. Abandonei a ideia do cinema-amigo para me concentrar no frequente conceito de serão a dois: Eu e o meu imaculado cigarro.
Fotografia: Pendurada na varanda, menina Júlia via o mundo. Todo ele azul-noite. A tua sombra, Júlia, é preta e em primeiro plano. O fumo deste cigarro faz desenhos estranhos. Balanças as perninhas ao som das pandeiretas de chuva... Chuva nos telhados. Chuva na rua. Chuva nesta cidade de Deus e do Diabo.
Campainha. Descaiu pa' dentro. Correu à sala para abrir a porta. Lembro-me de nesses breves instantes ter pensado quem seria àquela hora, que a campainha tinha um barulho horrível, que podia ser a Mafalda, que a carpete escorregava... Abriu. Nada. Estranho, muito. Olho. Dou dois passos à frente e olho para os dois lados. Estava a pisar alguma coisa, reparou. Um envelope.
Olá.
Bem sei que a carta é um método antiquado, mas a verdade é que me dá muito mais prazer escrever à mão do que abafar a minha sensibilidade poética num teclado ranhoso. Vejo-te na varanda. Fumas muito.


Esa wrote on 5:38 PM.
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